Marcos Fava Neves, Vinícius Cambaúva e Rafael Rosalino
Margem: seria essa a palavra mais citada nos eventos, convenções e reuniões de gestores do agro nas últimas safras? Nós acreditamos que sim. De fato, a margem dos grãos, especialmente da soja e do milho, vem encolhendo há quatro safras seguidas. Em 2022/23, o sistema soja-milho entregava ao produtor no Mato Grosso um resultado operacional de 32,0 sacas por hectare, segundo o painel de rentabilidade da
Markestrat/MIND. Na safra 2025/26, esse número já havia caído para 19,2 sc/ha. Em maio de 2026, bateu 14,3 sc/ha, o menor patamar da série histórica acompanhada pelo painel. A notícia boa, se é que existe uma nesse contexto, veio em junho: recuperação pontual para 16,1 sc/ha, puxada por uma acomodação passageira em fertilizantes e diesel. Os conflitos geopolíticos em 2026 pesam de forma mais direta sobre custo de reposição e frete internacional do que a guerra tarifária EUA-China pesava um ano antes, quando, inclusive, favorecia a soja sul-americana. Em outras palavras: o cenário mudou, mas a pressão sobre a margem não foi embora.


É esse pano de fundo que dá sentido à pergunta que trazemos no título desse texto. Os dados mais recentes do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) mostram um mercado de oferta abundante na soja e um cenário de menor oferta no milho. Cruzando esse balanço global com o custo de produção levantado pelo IMEA (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) para a safra 2026/27, a resposta que surge é qualificada: o desafio permanece, mas de forma desigual entre as duas
culturas; e com uma segunda metade de 2026 carregada de risco que pode interferir no alívio recente comentado acima.


Qual é o cenário para a soja?

O USDA revisou a produção mundial de soja 2026/27 para 442,3 milhões de toneladas em agosto, alta de 2,7% sobre a safra 2025/26 e novo recorde da série histórica. O Brasil segue como protagonista desse resultado: 193,5 milhões de toneladas produzidas e 118,6 exportadas. Do lado da demanda, o esmagamento na China e nos Estados Unidos sustenta o consumo. Já o estoque final mundial fica praticamente estável: 124,2 milhões de toneladas ante 125,12 milhões na safra anterior, sinal de que a oferta adicional está sendo absorvida, não empilhada. O preço médio nos Estados Unidos, no campo,
permanece congelado em US$ 11,40/bushel.


No Mato Grosso, o custo de produção da soja transgênica fechou julho de 2026 em R$6.750,93 por hectare de Custo Operacional Total (COT), com custeio de R$ 4.360,89/ha, segundo o levantamento mensal do IMEA. Somando o custo de oportunidade da terra e do capital, o Custo Total (CT) sobe a R$ 8.262,86/ha. É um custo que vem cedendo mês a mês desde maio (quando o COT estava em R$ 6.886,72/ha), aliviado, principalmente, por fertilizantes e por uma leve acomodação do câmbio, que fechou julho em R$ 5,11, após bater R$ 5,13 em junho. Segundo reportagem do Notícias Agrícolas, para o mesmo período, um ponto de equilíbrio de R$ 107,02 por saca contra um preço médio de R$111,17: margem positiva, mas de apenas R$ 4,15/saca.


Qual é o cenário para o milho?

No milho, o balanço global caminha na direção oposta à da soja. O USDA projeta produção mundial de 1.298,9 milhões de toneladas em 2026/27 — abaixo das 1.329,9 milhões da safra anterior, mesmo com a revisão de alta feita em agosto sobre a leitura de julho — e estoque final mundial recuando 8% na comparação anual, para 274,7 milhões de toneladas. O preço médio nos Estados Unidos, na fazenda, subiu a US$4,50/bushel. É um cenário de aperto relativo, puxado por quebras na União Europeia e por exportações menores da Ucrânia, só parcialmente compensadas por safras maiores nos Estados Unidos, na Rússia e na Zâmbia. Aqui também há o efeito do mercado em relação aos possíveis impactos do El Niño sobre a safra do cereal na América do Sul.


No Mato Grosso, os dados do IMEA para julho de 2026 mostram que a margem do milho depende diretamente do pacote tecnológico do produtor. No pacote de alta tecnologia, o COT fechou em R$ 6.056,65/ha, com produtividade modal de 129,82 sacas por hectare; no pacote de média tecnologia, o COT foi menor (R$ 5.637,57/ha), mas a produtividade modal também caiu, para 119,17 sc/ha. Em outras palavras: o produtor que investe R$ 419/ha a mais em tecnologia colhe, em média, 10,65 sacas adicionais por hectare, uma equação que só compensa se o ganho de receita superar esse custo. A análise do boletim do IMEA demonstra que o ponto de equilíbrio do milho está em torno de R$ 49,00/saca, contra um preço médio de R$ 46,12/saca em julho: margem negativa de R$ 2,89/saca. É o contraponto da soja: enquanto a oleaginosa ainda paga a conta, o cereal, mesmo em safra grande, opera no vermelho operacional na média estadual.


Ainda assim, o cenário futuro pode ser mais interessante: a combinação de estoques apertados (a), crescimento do consumo doméstico (b) — especialmente para etanol e ração — e possíveis impactos climáticos associados ao El Niño (c) pode reduzir a oferta disponível e sustentar uma recuperação das cotações. Alguns agricultores já veem possibilidades de travamento para março/2026 a níveis bem mais interessantes. Nesse contexto, uma eventual valorização do milho pode aproximar os preços do ponto de
equilíbrio ou mesmo restabelecer margens positivas ao produtor ao longo das próximas safras.

O que pode alterar o mercado?

Se as margens seguem por uma linha tão apertada, o que pode empurrá-las para cima ou para baixo nos próximos meses? Tentamos resumir na sequência os cinco pontos de atenção em setembro e outubro:

  1. Super El Niño e o calendário do milho 2ª safra. A atualização da NOAA de 13 de agosto elevou para mais de 90% a probabilidade de um evento “muito forte” no trimestre outubro-dezembro, com 69% de chance de superar qualquer El Niño já registrado desde 1950. O padrão projetado atrasa o início das chuvas no CentroOeste — justamente a região que baliza a janela de plantio do milho segunda safra 2026/27. Um atraso agora significa colheita mais tardia, mais exposta a geada e a nova pressão de preço lá na frente: o tipo de risco que pode transformar a margem hoje negativa do milho em prejuízo maior.
  2. Câmbio: o mecanismo que já está cortando a margem. O dólar operou entre R$5,05 e R$ 5,14 no início de agosto, acumulando queda de cerca de 22% em 16 meses. Isso levou a paridade de exportação da soja para a faixa de R$ 95 a R$ 100 por saca — abaixo do próprio custeio por hectare discutido neste texto —, justamente em um momento de custo de produção de 7% a 10% mais alto. O Rabobank aponta possibilidade de enfraquecimento do real no segundo semestre, o que aliviaria soja, algodão, celulose e carnes; mas a volatilidade cambial, somada à incerteza fiscal e ao ambiente eleitoral, segue como o principal risco de curto prazo para a margem.
  3. Ritmo de colheita nos dois hemisférios. No Brasil, a colheita da segunda safra de milho 2025/26 atingiu 84,7% da área em 14 de agosto — favorecida pelo tempo seco no Centro-Oeste, mas ainda atrás dos 89,3% do mesmo período de 2025. Nos Estados Unidos, o USDA registrou nova queda na condição boa a excelente da lavoura de milho 2026/27, mesmo com o desenvolvimento das culturas à frente da média de cinco anos. Se a degradação da safra americana persistir, é o tipo de notícia que sustenta preço — e pode ser justamente o gatilho que falta para o milho brasileiro sair do vermelho operacional.
  4. Eleições presidenciais e a régua tributária, cambial e de crédito a partir de 2027. Setembro deve concentrar propostas de campanha com potencial de alterar a régua do agronegócio a partir de 2027 — tributação, câmbio, comércio exterior, crédito rural e licenciamento ambiental. Não é um risco imediato sobre a margem da safra 2026/27 em curso, mas é o fator que deve pesar na decisão de investimento e de pacote tecnológico da safra seguinte, a mesma escolha discutida ao longo deste texto.
  5. Acordo EUA-China: o concorrente direto ficou mais barato. A China retomou as compras de soja americana — quase 1 milhão de toneladas em uma semana, com mais de 6 milhões de toneladas já negociadas para embarque a partir de 1º de setembro, início do ano-safra americano, dentro da meta bilateral de 20 a 25 milhões de toneladas por ano. O movimento coincidiu com a queda das cotações em Chicago, que tornou a soja americana mais barata que a brasileira pela primeira vez nesta safra: pressão direta sobre o prêmio de exportação que sustenta a margem hoje positiva por apenas R$ 4,15 por saca do produtor de Mato Grosso.
  6. O que podemos concluir?
    A resposta à pergunta do título é, portanto, afirmativa: a safra 2026/27 não elimina o desafio das margens, apenas muda sua natureza — e não de forma igual para todos. A oferta global generosa de soja, combinada ao câmbio desfavorável e à maior competição internacional, garante ao produtor brasileiro uma margem defensiva, mas estreita; o milho, por outro lado, mesmo diante de um balanço mundial mais apertado, ainda não repassou esse aperto ao preço interno o suficiente para cobrir o custo médio, embora exista uma janela de recuperação das cotações condicionada ao clima, ao consumo e ao câmbio. Nesse cenário, a decisão sobre o pacote tecnológico deixou de ser apenas uma escolha agronômica e passou a ser também uma escolha financeira, que precisa caminhar ao lado de estratégias de comercialização e gestão de custos.

Com pelo menos cinco pontos de risco no horizonte, mais do que apostar em uma trajetória única de preços, o produtor precisará capturar eventuais momentos favoráveis para proteger sua margem. A questão central para 2026/27, portanto, não será apenas quanto o grão poderá valer, mas quanto da receita potencial conseguirá efetivamente permanecer no bolso do agricultor.

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio.
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Rafael Barros Rosalino é consultor na Markestrat Group, médico veterinário pela FCAV/UNESP.
É mestrando em Administração pela FEA-RP/USP