Marcos Fava Neves e Vinícius Cambaúva

O Brasil vivencia uma transformação estrutural na sua matriz energética e agrícola. Historicamente consolidado como líder global na produção de biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar, o país assiste à ascensão acelerada do etanol de milho, que superou as visões simplistas de competição entre matérias-primas (“cana versus milho” para “cana + milho”) e estabeleceu um modelo de complementaridade que fortalece a segurança energética, a sustentabilidade e a competitividade do país no cenário de descarbonização global.  

1. Qual tem sido a evolução recente do número de usinas flex (cana e milho) e, atualmente, qual sua participação na produção? Seria possível identificar investimentos recentes em usinas daquele formato? 

A produção de etanol a partir do milho no Brasil começou a ganhar relevância na safra 2017/18, quando representava pouco mais de 500 milhões de litros (menos de 2% do total nacional). Em menos de uma década, a produção saltou para cerca de 6 a 8 bilhões de litros, atingindo aproximadamente 20% de todo o etanol comercializado no país; dados da União Nacional do Etanol de Milho – UNEM. 

Atualmente, o parque industrial brasileiro voltado ao processamento de milho conta com cerca de 30 unidades industriais, distribuídas entre plantas dedicadas (full) e usinas do formato flex (capazes de processar cana-de-açúcar e milho). As usinas flex representam cerca de um terço dessas unidades operacionais.  

O ritmo de expansão do setor demanda aportes contínuos. Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam investimentos industriais expressivos na ordem de R$ 17,5 bilhões até 2035, contemplando a ampliação de mais de 40 plantas existentes (incluindo conversões e expansões para a modalidade flex) e a construção de novas unidades. A estimativa é de que a oferta total de etanol alcance cerca de 50 bilhões de litros até meados da próxima década, sendo aproximadamente 30% a 40% desse volume proveniente do milho. 

2. Quais fatores justificam a decisão de investir em usinas que podem alternar milho e cana em seu processo produtivo? Esse tipo de decisão leva em conta fatores como eficiência operacional e energética, custos de implantação? 

A decisão apoia-se centralmente na otimização de ativos industriais (a) e na diluição de custos fixos (b). Enquanto a cana-de-açúcar apresenta uma janela de moagem limitada pelo período chuvoso (geralmente entre abril e novembro), o milho é um grão estocável. Isso permite que a planta industrial mantenha a operação ativa ao longo de todo o ano, incluindo os meses de entressafra da cana.  

Essa alternância traz benefícios diretos em três frentes: 

  • Eficiência Operacional e Logística: O uso contínuo da infraestrutura industrial, dos sistemas de armazenamento e da frota logística reduz a ociosidade dos equipamentos e estabiliza a oferta do combustível no mercado regional ao longo dos 12 meses.  
  • Eficiência Industrial e Agronômica: A conversão industrial do milho é altamente eficiente (cada tonelada gera entre 360 e 420 litros de etanol, em comparação com 70 a 90 litros por tonelada de cana). Além disso, o processamento de milho não gera resíduos descartados: dá origem a coprodutos proteicos de alto valor para a nutrição animal — os DDGs (Distillers Dried Grains) — e ao Óleo Técnico de Milho (TCO).  
  • Matriz Energética e Custos: A decisão de implantação pondera o aproveitamento da infraestrutura existente na usina de cana (como caldeiras e turbinas de cogeração), embora exija adequações tecnológicas para a etapa de enzimagem e fermentação do amido. Diferente das refinarias do Hemisfério Norte (que usam gás natural ou carvão), as indústrias no Brasil utilizam biomassa renovável (bagaço de cana e cavaco de eucalipto) para gerar calor e vapor, mantendo a pegada de carbono do processo em níveis significativamente baixos.  

3. Como você avalia a competitividade de usinas flex em relação ao restante do setor? Esse arranjo produtivo deve se tornar uma tendência no setor, daqui em diante? Ou estrategicamente as oportunidades seriam maiores em usinas que processam uma única matéria-prima? 

As usinas flex oferecem um nível incomparável de resiliência estratégica. Elas conseguem navegar com flexibilidade diante da flutuação de preços das commodities no mercado internacional. Quando o valor do açúcar está aquecido, a usina pode direcionar maior volume do caldo da cana para a fabricação do alimento, compensando a oferta de etanol através do processamento do milho adquiridos nos picos da colheita regional.  

No entanto, a consolidação do setor demonstra que o futuro não pertence exclusivamente a um modelo, mas sim à coexistência estratégica entre plantas flex e usinas full. Nas regiões tradicionais de cana (como o Sudeste e Centro-Sul), o formato flex é a tendência natural de expansão. Usinas de cana já estabelecidas acoplam módulos de milho para otimizar seus ativos na entressafra e atender mercados regionais de biocombustíveis e ração animal. Já nas fronteiras de grãos do Centro-Oeste (como Mato Grosso e Goiás), predominam as usinas full de grande escala. Nessas localidades, onde o milho é produzido massivamente como 2ª safra (em sucessão à cultura da soja), a escala industrial dedicada justifica-se pela abundância da matéria-prima local e pelas oportunidades de negócios acoplados, como a pecuária intensiva viabilizada pelo DDG.  

Segundo projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a produção total de etanol no Brasil deve alcançar entre 45 e 58 bilhões de litros em 2035, impulsionada pelas diretrizes estratégicas da Lei do Combustível do Futuro. Nesse cenário de expansão, a EPE estima que o etanol de cana-de-açúcar responderá por 58% da oferta total (cerca de 35 bilhões de litros), mantendo sua relevância histórica no país. Por sua vez, o etanol de milho consolidará seu ritmo acelerado de crescimento e alcançará 42% da produção nacional (atingindo cerca de 22 bilhões de litros), reforçando a complementaridade e a segurança energética nacional. 

Em termos de competitividade global, o etanol brasileiro (seja de cana, de milho de safra intermediária ou flex) apresenta vantagens imbatíveis de sustentabilidade. Produzido sem a conversão de vegetação nativa e alimentado por biomassa renovável, o biocombustível nacional alcança mitigações de 67% a mais de 80% nas emissões de gases de efeito estufa quando comparado à gasolina fóssil.  

Essas características qualificam o etanol brasileiro não apenas para a frota leve local, mas como matéria-prima de baixíssima pegada de carbono para as novas fronteiras da transição energética mundial — como o Combustível Sustentável de Aviação (SAF), o metanol verde para o transporte marítimo e projetos de Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono (BECCS). 

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).  

Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School e na Kansas State University (Estados Unidos). Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.